Montessori, Paz e Libertarianismo

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Por Stephan Kinsella

Entre libertários e austríacos, há um intenso interesse no tópico de como educar as crianças. Obviamente que somos todos aversos à ideia da educação estatal. Isso tem levado muitos libertários a abandonar escolas estatais em favor de escolas particulares ou homeschooling ou até a ideia aparentemente estranha do “unschooling“.

Um dos métodos menos convencionais de educação é aquele encabeçado por Maria Montessori (1870-1952), o comumente chamado Método Montessori. Muitos libertários podem ter ouvido falar desse método porque Ayn Rand tinha coisas boas para falar sobre ele.

Meu filho tem frequentado a The Post Oak School desde que tinha 18 meses e agora está na segunda série (escola primária).

Dada a natureza única do método Montessori, eu sou frequentemente perguntado sobre isso, por libertários e outras pessoas. Eu não alego ser um expert, mas abaixo eu compartilho alguns dos pensamentos a respeito de Montessori e aspectos de criação relacionados.

Credenciamento. Aparentemente Montessori não é marca registrada, o que significa que qualquer escola pode se entitular como sendo “Montessori”. Algumas são oficialmente credenciadas pela Associação Montessori Internacional original. Essas são as chamadas escolas AMI; Post Oak, por exemplo, é uma das três escolas AMI na área da Grande Houston. Algumas escolas Montessori nos EUA são também credenciadas pela American Montessori Society (AMS) (Sociedade Montessori Americana, em tradução livre).

A história da separação da AMI e AMS é um pouco complicada. Aparentemente, após Montessori estar estabelecida em Roma em 1907, houve um intenso interesse por esse método educacional na América em 1917. Entretanto, a publicação em 1914 do livreto The Montessori System Examined (O Sistema Montessori Examinado, em tradução livre), pelo socialista democrático e seguidor de John Dewey William Heard Kilpatrick ajudou a refrear o interesse por Montessori na América por décadas. Muitos de seus argumentos já foram refutados, mas apenas décadas após ter servido ao seu propósito. Montessori continuou popular em outras partes do mundo, mas na América entrou em declínio, com pouca presença da AMI. No meio tempo, a americana Nancy McCormick Rambusch aprendeu sobre o método Montessori na Europa e acabou fundando a AMS. Isso levou a um domínio da AMS nos EUA, mas tem havido também  uma ressurgência da AMI nas últimas décadas.

Há muitas escolas Montessori não-credenciadas por aí. Qualquer pai considerando Montessori deve se certificar de que a escola é credenciada pela AMI ou pela AMS.

Eu sei que muitos libertários hoje em dia preferem homeschooling, mas ao contrário de certos libertários de esquerda “localistas”, eu realmente acredito na divisão e especialização do trabalho e acho que uma escola de verdade pode ser superior ao homeschooling. O fracasso das escolas públicas e mesmo muitas escolas particulares (influenciadas pelo governo) hoje em dia tem feito do homeschooling uma opção muito melhor para alguns, o que é um triste comentário sobre o estado da educação pública e convencional modernas. Se mães sem treinamento podem fazer um trabalho melhor do que a maioria das escolas públicas e convencionais – e parece que elas podem – então algo está na educação mainstream. No atual estado das coisas, minha visão é de que a melhor solução é uma boa escola particular Montessori credenciada pela AMI ou AMS; seguido de educação particular e/ou em casa (e para aqueles que preferem homeschooling, o método Montessori pode ainda ser aplicado). Elas são todas, falando de modo geral, superiores às escolas públicas. Há outra filosofia chamada “unschooling“, mas eu acho que ela não é sistemática e um pouco reacionária, mas mesmo ela é provavelmente superior a escolas públicas em muitos casos.

Foco na Criança. Maria Montessori começou trabalhando nos anos 1900 com crianças com dificuldades intelectuais. Ele descobriu que poderia “normalizá-los” ao prover a eles o ambiente apropriado. (“Normalização” é outro termo idiossincrático em Montessori que se refere a ideia de que dado o ambiente adequado, é “normal” para todas as crianças serem capazes de deslocarem da “condição ordinária de disordem, inatenção e apego à fantasia ao estado normal de ser, mostrando tais comportamentos externos como auto-disciplina espontânea, independência, amor pela ordem e completa harmonia e paz com os outros em situações sociais.”) Imagine o que pode ser feito com crianças sem dificuldades, ela pensou! Da observação e pensamento extensivos ela desenvolveu teorias sobre como crianças se desenvolvem e qual o tipo de ambiente elas necessitam para permití-las florescer e atingir seu pleno potencial, nos vários estágios de desenvolvimento. Como escreveu Montessori,

“A criança não pode se desenvolver se ela não tem objetos ao seu redor que a permita agir. Até o presente momento, se acreditava que a maior parte do aprendizado efetivo se dava quando o conhecimento era passado diretamente à criança pelos professores. Mas na verdade é o ambiente que é o melhor professor. A criança precisa de objetos para agir; eles são a nutrição para o seu espírito.” [Education and Peace, 57]

Em última análise, isso resultou em uma grande variedade de materiais táteis cuidadosamente fabricados baseados na visão de que humanos em desenvolvimento são muito dependentes do toque. Essa é uma razão pela qual é difícil recriar esse metódo em um ambiente de homeschooling – a maioria dos pais não consegue arcar com os custos de ter em casa os recursos e ambiente fornecidos em uma escola Montessori (mas, como observado acima, ainda pode ser empregado no homeschooling). Isso é divisão do trabalho. Mas isso não é dizer que o ambiente doméstico não é importante: desde o início a técnica enfatiza o papel complementar de ambos os pais e a escola em desenvolver o total potencial da criança.

Planos de Desenvolvimento. A pesquisa empírica de Montessori a levou a acreditar que humanos se desenvolvem em quatro “planos de desenvolvimento” de seis anos, cada qual com as suas características particulares de aprendizado; o ambiente para cada um é planejado de acordo com o estágio. De acordo com essa visão, humanos atingem a maturidade plena quando têm por volta de 24 anos. Cada plano de desenvolvimento tem seus próprios estágios de desenvolvimento, com os três primeiros anos de um estágio (um sub-estágio) voltado primariamente para a obtenção de conhecimento e o segundo sub-estágio de três anos focando no refinamento do conhecimento apropriado daquele plano.

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Pesquisas recentes têm mostrado suporte científico a essa visão do desenvolvimento humano e a eficácia do método educacional Montessori. Como evidência de tal, como publicado no blog WSJ, o método Montessori produz muitos membros da “elite criativa”, incluindo “os fundadores do Google, Larry Page e Sergei Brin, Jeff Bezos do Amazon, o pioneiro dos videogames Will Wright e o fundador da Wikipedia Jimmy Wales, isso sem falar de Julia Child e o rapper Sean ‘P. Diddy’ Combs.” Como observado no site da Post Oak, “Um número desproporcionalmente grande dos formados são inovadores, exploradores e iconoclastas. A lista inclui prêmios Nobel, líderes mundiais, empreendedores de sucesso e pessoas normais – todos vivendo uma vida com as dádivas do autoconhecimento e motivação intrínseca que são os legados de todo aluno Montessori.” E não esqueça esse ótimo vídeo feito em casa, I’m in Love with Friedrich Hayek (Eu estou apaixonada por Friedrich Hayek, em tradução livre), by Dorian Electra, uma aluna recém-formada da School of the Woods, uma escola Montessori da AMS aqui em Houston.

Professores como guias. Professores são vistos como “guias” e as crianças “trabalham” e assim elas aprendem a amar o processo de aprendizado e a ensinar a si mesmos. Devido a esse foco, eles não estão preocupados, como em escolas convencionais, com a razão “aluno/professor”. Afinal, se uma pequena razão aluno/professor é melhor, então idealmente a educação seria individual. Isso obviamente não é realista. Mas em escolas convencionais você tem um professor bombeando conhecimento em alunos sentados em cadeiras enfileiradas. Os alunos são passivos e andam como se estivessem marchando. No método Montessori, não há mesas; os alunos são livres para se movimentar, sem restrições físicas, de forma que podem escolher o trabalho nos quais eles estão interessados ou precisam se concentrar. Os professores guiam os alunos a trabalhar por si mesmos. Como explicado no site da AMI:

“O papel do professor Montessori é muito diferente do papel desempenhado por professores em muitas escolas. Eles geralmente não são o centro das atenções e passam pouco tempo dando aulas a grandes grupos. Seu papel foca no preparo e organização dos materiais de aprendizado apropriados para atender às necessidades e interesses de cada criança na sala. Normalmente, os professores Montessori são vistos trabalhando com um ou dois alunos de uma vez, aconselhando, apresentando uma nova lição ou silenciosamente observando a classe trabalhar. O foco é nas crianças aprendendo, não nos professores ensinando. As crianças são consideradas indivíduos distintos em termos de seus interesses, progresso, crescimento e estilo de aprendizado preferido. O professor Montessori é um guia, mentor e amigo.

Os alunos são tipicamente encontrados espalhados pela sala de aula, trabalhando sozinhos ou com um ou dois outros alunos. Eles tendem a ficar tão envolvidos em seu trabalho que visitantes tendem a ficar impressionados com a calma atmosfera.

Devido ao papel dos professores como guias, não há a mesma obsessão com a razão aluno/professor como nas escolas convencionais.”

Divisão em faixas etárias de três anos. Com base na ideia de sub-planos de três anos dos planos de desenvolvimento de seis anos, no Primário (3-6 anos), Elementar Inicial (1ª-3ª séries) e Elementar Avançado (4ª-6ª séries), as crianças são agrupadas em faixas etárias de três anos. Por exemplo, o meu filho está agora na segunda série do Elementar Inicial, da 1ª a 3ª séries são todas uma só. Uma razão para isso é que as crianças nessa faixa etária estão todas no mesmo sub-plano de desenvolvimento, de forma que eles podem compartilhar o mesmo ambiente e materiais desenvolvidos para crianças desse sub-plano.

Outra vantagem desse método é que crianças têm o mesmo professor por três anos. Isso permite que o professor (o “guia”) conheça a criança extremamente bem. Seus relatórios aos pais sobre o progresso da criança são sempre verbais e qualitativos, ao invés de quantitativos. Ao contrário de muitas escolas públicas, as escolas Montessori não “ensinam para a prova”, exceto quando necessário para se adequar aos padrões mainstream. Eles não recebem notas de forma a induzir alunos a se destacar por si próprios, ao invés de competir com colegas de classe e julgar seu sucesso por como se comparam aos outros. (Nesse reconhecimento da dificuldade em descrever agentes humanos quantitativamente e seus caráteres e capacidades, eu vejo um paralelo com a noção austríaca de valor como sendo subjetiva, ordinal e  que não permite comparação interpessoal.)

Outra vantagem dessa faixa etária de três anos é que as crianças retornam a 2/3 da mesma turma todo ano. Isso cria mais continuidade.

Esse método também dá à criança um completo espectro de desenvolvimento ao longo dos três anos naquela classe: primeiro, como um membro mais novo daquela turma, eles são cuidados e orientados pelas crianças mais velhas; conforme eles amadurecem, eles se tornam responsáveis por serem exemplos e mentores para os mais novos. Isso por si só é um modelo de aprendizado poderoso e um incentivo para que a criança amadureça. O meu filho e três outros meninos, agora na segunda série, por um tempo causaram interrupções nas aulas. O professor explicou a eles que no próximo anos eles precisarão ser exemplos para as crianças mais novas; essa perspectiva ajudou a motivá-los a auto-melhorar.

A ideia de “meio-período.” O estágio mais precoce da AMI Montessori é a “comunidade infantil” (“Casa dei Bambini”). Ela começa tão logo a criança já está suficientemente treinada a usar o penico e sabe andar – entre 14 e 18, digamos, e vai até os 3 anos, até que a criança esteja pronta para o “Primário” (3-6 anos). Na escola dos nossos filhos, nesse estágio você pode escolher a comunidade infantil do dia todo ou meio-período. Ao contrário de outras escolas, onde “meio-período” pode ser 3 dias na semana, segunda, quarta e sexta-feira, Montessori vê meio-período como metade do dia, da manhã até às 11:30, todos os cinco dias; e o tempo todo se extende até por volta de 3 da tarde. A ideia é que o foco esteja na criança: meio-período ainda é cinco dias na semana, visando consistência do ponto de vista da criança. Imagine uma criança indo para a escola segunda, quarta e sexta: eles têm aula um dia sim, um dia não. Isso confunde a criança. A ideia de acordar toda a manhã, de segunda a sexta-feira, é uma rotina mais estabelecida para a criança. Meu ponto não é que eu concordo com essa prática em particular. É que ela é desenvolvida com cuidadosa atenção  às necessidades da criança, baseada em sua perspectiva.

Fantasia e Realidade. O uso de fantasia é minimizado nas crianças mais novas. A ideia é que jovens mentes em desenvolvimento têm contexto insuficiente para entender conceitos fantásticos; ao invés disso, comece por prendê-lo à realidade: coisas reais, colheres, copos, objetos. Conforme explicado aqui:

“No método Montessori, a fantasia e imaginação são uma grande parte do processo criativo. Entretanto, uma vez que o mundo real é visto como a criação maravilhosa que é, as crianças são introduzidas ao mundo real em todas as suas variações nos primeiros seis anos e então usam essas experiências para criar pelo resto de suas vidas. A palavra “trabalho” é usada para descrever as atividades da criança, ao invés de “brincadeira”, porque elas são respeitadas como atividades de adultos.”

Novamente: se eles estão certos ou errados nesse assunto em particular não é o meu intuito (o método Waldorf tem uma abordagem oposta em relação à fantasia); meu intuito é que isso é desenvolvido com cuidadosa atenção à necessidades naturais das crianças. Eu introduzi fantasia ao meu filho bem cedo, mas eu estava consciente da noção de que ele poderia não ter o contexto para entender tudo sobre aquilo e me certifiquei que ele era exposto a coisas “reais” também.

Leitura e escrita. Uma das minhas coisas preferidas de Montessori é o método para aprender a ler e escrever. Seguindo uma mistura dessas ideias (veja Montessori Read and Write) e How To Teach Your Baby to Read de Glen Doman, eu ensinei meu próprio filho a ler quando era bem novo. Há muitos aspectos do método Montessori:

  • Não ensine às crianças os nomes das letras. Essa é uma ideia-chave. Ensine simplesmente como as letras soam e como elas são. Assim, se você aponta às letras do alfabeto, você falaria “á, bê, cê (para distinguir o c, “cê”, do k, “cá”), dê, é, éfe, guê,” e assim por diante.
  • Escrever é às vezes ensinado antes de ler. A ideia é que “crianças mais novas são frequentemente capazes de escrever (codificar linguagem ao soletrar palavras fonéticas um som de cada vez) semanas ou meses antes se serem capazes de ler confortavelmente (decodificar palavras impressas).” E se você consegue escrever uma palavra, então você pode lê-la – você sabe o que o escreveu. Pode parecer estranho, mas aprender a escrever ajuda a ensinar a si mesmo a ler.
  • Letra cursiva é ensinada antes de letra de forma. Cursiva, da forma que eu entendo, não é sequer ensinada em algumas escolas, o que é uma pena. No método Montessori, ela é ensinada primeiro, uma vez que a criança é capaz de fazer os movimentos fluídos da letra cursiva mais faiclmente do que letras de forma.

(Incidentalmente, o método Suzuki de aprender música – tipicamente violino ou piano – é similar em muitas formas ao método Montessori em relação à linguagem – as crianças aprendem a tocar ao aprender quais teclas fazem quais sons, sem a princípio se preocuparem em aprender os nomes das notas. Não deveria ser surpresa que praticantes de Montessori normalmente recomendam o método Suzuki.)

O Berço. Eu não comecei a aprender muito sobre Montessori até que o meu filho estivesse com nove meses. Se eu tivesse aprendido antes eu nunca teria me preocupado em usar um berço. Da forma que foi, nós o tiramos do berço aos onze meses e nos livramos dele – nós colocamos o colchão do berço no chão em um canto e ele dormiu nele. Por que prender a criança em um berço, como se ela estivesse na cadeia? Por que restringir seus movimentos, sua habilidade de explorar? (E berços são perigosos, também – muitos bebês caem do berço ou ficam presos.) Como Maria Montessori escreveu:

“Quando é dada liberdade a criança para se mover em um mundo de objetos, ela é naturalmente inclinada a realizar a tarefa necessária para o seu desenvolvimento inteiramente sozinha. Falemos isso de forma direta – a criança quer fazer tudo por si mesma. Mas o adulto não entende isso e um esforço cego se inicia. A criança não gosta de não fazer nada ou perder tempo fazendo coisas inúteis ou se mover sem rumo, como muitas pessoas acreditam. Ela visa um objetivo muito preciso e o visa com uma direção institiva de propósito. Esse instinto que a impele a fazer coisas por si mesma nos torna encarregados de preparar o ambiente para realmente permitir que ela se desenvolva. Quando ela se liberta dos adultos opressivos que agem por ela, a criança também atinge seu segundo objetivo, trabalhando positivamente rumo à sua própria independência.” [Education and Peace, 55]

E se ele rola para fora do colchão no meio da noite, ele pode engatinhar de volta – dando a ele auto-responsabilidade, independência e auto-confiança.

Como notado no catálogo de Michael Olaf The Joyful Child:

“Toda criança segue um cronograma único de aprender a engatinhar para aquelas coisas que ele está olhando, de forma que pode finalmente manuseá-las. Essa exploração visual, seguida da tátil, é muito importante para muitos aspectos do desenvolvimento humano. Se nós fornecermos uma cama ou colchão no chão em um cômodo completamente seguro – ao invés de um berço ou chiqueirinho com grades – a criança tem uma visão clara dos seus arredores e liberdade de explorar.

Uma cama deve ser tal que o bebê pode subir e descer por conta própria assim que estiver pronto para engatinhar. A primeira escolha é um colchão de casal no chão. Além de ser uma ajuda ao desenvolvimento, esse arranjo faz muito para prevenir o problema comum de choro por causa de tédio ou exaustão.

Ajuda pensar nisso como um se o cômodo todo fosse um chiqueirinho com um portão de proteção na porta e examinar todos os cantos pelo interesse e segurança. Se o recém-nascido irá dividir o quarto com seus pais ou irmãos, nós ainda podemos proporcionar um ambiente espaçoso, seguro e interessante.

Eventualmente ele irá explorar o quarto todo com um portão na porta e então gradualmente irá para o resto da casa que está segura e interessante para a criança.”

Veja também Designing a Montessori Infant Environment at Home.

Novos pais: economizem seu dinheiro. Não comprem um berço. Tudo o que vocês precisam é um colchão em um quarto seguro. Para um recém-nascido, eu acredito que um moises é colocado no colchão, até que o bebê esteja pronto para ficar no colchão em si.

Almoço e lição de casa. Por algumas observações variadas – nas escolas convencionais que eu tenho ouvido, o professor passa lição de casa na segunda-feira para ser entregue na terça, e na terça, lição de casa para ser entregue no dia seguinte, e assim por diante. Na escola do meu filho, lição de casa para o elemental inicial é passada na segunda-feira, para ser entregue na quinta. Fica a cargo da criança decidir como gerenciar seu tempo durante a semana e fazer a lição. Isso ajuda a ensinar responsabilidade e generenciamento do tempo.

Além disso, ainda que The Post Oak não seja barata, não há refeitório e refeições não são fornecidas. Se espera da criança que prepare seu próprio almoço (com supervisão ou assistência dos pais) toda manhã. Isso ensina conscientização quanto à nutrição e auto-confiança e responsabilidade.

Paz. Uma das características mais fascinantes da filosofia Montessori, para libertários, foi a devoção apaixonada de Maria Montessori à paz. Isso pode ser vistos nas escolas, onde as crianças são ensinadas que elas todas são membros da família humana, que nós somos filhos do mundo e que nós devemos respeitar os direitos individuais uns dos outros. Elas são ensinadas cooperação e responsabilidade e respeito aos outros. Algumas escolas Montessori tentam encorajar resolução de conflitos semelhante à mediação ou arbitragem (veja o meu post no LRC Out of the Mouths of Babes). Veja o vídeo Education for Peace: The Essence of Montessori (incluído abaixo).

Mas o método Montessori para a paz é muito mais do que isso. A ideia de paz é profundamente incorporada em todo o método educacional. Maria Montessori acreditava haver muitas razões pelas quais a raça humana não havia ainda atingido a paz. Uma era a falsa ideia de paz como meramente a cessação de guerras. Ela discute isso em detalhe em seu ótimo livro Education and Peace. Conforme ela nota:

“A história humana nos ensina que a paz significa a submissão forçada do conquistado pela dominação, uma vez que o invasor tem consolidado a sua vitória, a perda de tudo o que o derrotado considerado valioso e o fim do proveito dos frutos do seu trabalho e suas conquistas. Os derrotados são forçados a fazer sacrifícios, como se eles fossem os únicos culpados e merecedores de punição, simplesmente porque eles foram derrotados. Enquanto isso, os vitoriosos ostentam os direitos que eles acham que ganharam da população derrotada, que continuam vítimas desse desastre. Tais condições podem marcar o fim do combate real, mas elas certamente não podem ser chamadas de paz.” [pp. 6-7]

Isso foi escrito prescientemente em 1932, conforme a falsa “paz” da Primeira Guerra Mundial estava semeando as sementes da Segunda Guerra Mundial.

Montessori também lamentou a falta de uma ciência da paz: “é um tanto estranho, de fato, que ainda não haja algo como uma ciência da paz, uma vez que a ciência da guerra parece estar altamente avançada, ao menos no que se refere a tais armamentos e estratégias concretos….” (p. 5). Isso ecoou em um comovente e inspirador artigo em 1985 por John Bremer, que escreve: “Do meu pequeno conhecimento do pensamento oriental, parece ser bem possível que uma disciplina da paz já exista e eu quero dizer uma disciplina para um estilo de vida e não uma disciplina acadêmica.” (“Education as Peace” N.A.M.T.A Quarterly 11, no.1 (Fall 1985), p. 26.)

Se é  verdade que libertários podem se beneficiar das ideias educacionais de Montessori, é verdade também que seguidores de Montessori procurando por uma ciência da paz podem parar de procurar: isso é o que o libertarianismo é. O libertarianismo reconhece que o mundo de escassez que habitamos faz surgir conflitos e guerra e que a solução é a adoção de regras civilizadas de cooperação e alocação de direitos de propriedade – uma sociedade libertária de leis privadas. Se Montessori tivesse sido informada das ideias da economia austríaca de livre-mercado e do liberalismo anti-estado e a favor da paz, quem sabe – talvez ela tivesse se tornado uma importante defensora das visões libertárias.

Ceticismo quanto ao estado, individualismo e amor à liberdade permeia a perspectiva Montessori. Vale a pena citar em detalhe o artigo de Bremer:

“Maria Montessori… sabia que a educação, adequadamente entendida, é uma perturbação ao universo como é convencionalmente concebido e vivido. Ela coloca a estrutura de poder em risco, uma vez que há uma forte possibilidade de que ela seja exposta pelo o que ela é – uma imposição sobre a sagrada ordem das coisas, uma distorção daquilo que é natural, para o suposto benefício daqueles indispostos ou incapazes de aprender. Ela também entendia mais claramente que qualquer um de seus contemporâneos que se a perversão da ordem natural das coisas for mantida pela instituição do poder, então a alma também deve ser pervertida, pois ela é o único poder, o único curso de energia no universo que é capaz de ver e mostrar a corrupção e a perversão do todo e corrigí-lo. Essa perversão da alma se arroga, por óbvia vantagem retórica, o nome de educação. Na realidade, isso é o que foi caracterizado anteriormente como uma forma de doutrinação e repousa sobre um desequilíbrio e uma desigualdade de poder.

A chave para Montessori está contida nas duas falas que são mais frequentemente repetidas do que argumentadas e entendidas – “Siga a criança” e “Olhe para a criança.”

… A falácia fundamental dos convencionais apologistas na educação é [que] se o professor estabelecer controle, os alunos podem aprender. … Essa fundamental falácia educacional tem, obviamente, seu análogo político. Como poderia ser de outra forma quando na opinião convencional “educação” é um sub-ramo da “política”? A falácia política básica é que se pessoas são controladas “pela autoridade adequada”, então elas irão se aprimorar. Eu suspeito que elas possam se aprimorar como ovelhas, mas dificilmente como seres humanos, como cidadãos.

… [Em] nossas relações internacionais, nós teremos que aprender o que quer que seja o análogo de “Siga a Criança” e de “Olhe para a Criança.” É possível que cheguemos a ver, eventualmente, o estado-nação pelo o que ele é – um extensivo mecanismo de defesa contra o aprendizado, e podemos descobrir alguns novos padrões de organização que irão simultaneamente oferecer segurança e a oportunidade de aprender. Exatamente como os diplomas de Montessori são diferentes de credenciais comuns, eu suspeito que a diplomacia Montessori possa ser de uma ordem diferente daquela conduzida pela intransigência de Kissinger e semelhantes.

… Eu repouso a minha confiança na ciência de que se o poder corrompe e o poder absoluto corrompe de forma absoluta, então o aprendizado liberta e o aprendizado universal liberta de forma universal. E o aprendizado universal é a paz em ação.” [pp. 33-34]

Note o marcante reconhecimento das mentiras e corrupção do estado e o uso de propaganda na educação. Não é nenhuma surpresa saber que Maria Montessori, como Inspetora de Escolas na Itália, se recusou a usar o sistema educacional para produzir soldados para Mussolini. Como notado aqui: “Em 1922, ela foi apontada Inspetora de Escolas na Itália. Ela perdeu essa posição quando se recusou a ter os jovens sob seus cuidados tomar o voto fascista como o ditador Mussolini exigiu.” Mais detalhes são fornecidos aqui:

“em 1929 Montessori abriu a Associação Montessori Internacional na Holanda, seguida de outra filial em Londres, em 1947. Contudo, o mundo político tinha os seus próprios problemas a serem resolvidos, de forma mais notável, a ascensão do fascismo na Itália e a expansão do regime nazista alemão. Montessori se encontrava sob extrema pressão para transformar suas escolas em centros de treinamento para produzir soldados em massa para a guerra. Naturalmente, ela se recusou, e por um pouco tempo ela e seu filho Mario foram presos. Soltos e então exilados, eles fugiram da Itália, se refugiando inicialmente na Espanha e Índia e, finalmente, na Holanda.”

Montessori acreditava que a razão pela qual temos guerra, e não paz, é não apenas por causa das falsas concepções de paz, mas porque a natureza da criança foi negligenciada durante a educação, levando à paralisia moral e a indivíduos moralmente atrofiados, que não têm defesas para resistir à propaganda estatal e às exigências da guerra. E a razão para isso era uma concepção equivocada relacionada à natureza da criança e sua relação com o adulto e sobre o método adequado de educação.

Como ela escreveu:

“A criança e o adulto são duas distintas partes da humanidade que devem trabalhar juntas e se combinar com ajuda recíproca.

Portanto, não é apenas o adulto que deve ajudar a criança, mas a criança deve ajudar também o adulto. Sem mais! No crítico momento da história pelo o qual estamos passando, a assistência da criança tem se tornado uma necessidade fundamental para todos os homens. Até agora, a evolução da sociedade humana tem acontecido unicamente com base no desejo do adulto. Nunca com o desejo da criança. Assim, a figura da criança tem se mantido fora das nossas mentes conforme construímos a forma material da sociedade. E por causa disso o progresso da humanidade pode ser comparado ao de um homem tentando avançar em um perna, ao invés das duas.” [Citado em E. M. Standing, Maria Montessori: Her Life and Work (1998 [1957]), p. 81.]

Uma ideia-chave de Montessori é a percepção de que a criança cria o adulto.

“Cada um de nós não foi sempre um adulto; foi a criança que construiu a nossa personalidade. Antes de nos tornarmos a importante pessoa adulta que somos agora, o respeitado membro da sociedade, nós fomos outra personalidade – muito diferente, muito misteriosa – mas totalmente desconsiderada pelo mundo; sem respeito; sem nenhuma importância; sem voz em como as coisas funcionam. Entretanto, todo o tempo nós fomos de fato uma personalidade capaz de fazer algo que não podemos fazer agora. Aquele que é o construtor do homem não pode nunca ser uma pessoa sem importância. Ele é capaz de fazer algo grandioso, como uma semente. É apenas quando percebemos a forma maravilhosa pela qual a criança cria o homem que nós percebemos que, ao mesmo tempo, que temos em nossas mãos um segredo pelo qual podemos ajudar na formulação de uma melhor humanidade. (Exatamente o oposto de uma arma secreta para destruí-la.)” (Citação de Standing, Maria Montessori: Her Life and Work, pp. 157-158.)

Em resumo, Maria Montessori argumenta que a única forma de alcançar a paz mundial é educar os jovens de acordo com sua natureza, para produzir “cidadãos do mundo” naturalmente pacíficos. Sua visão é grandiosa e sua linguagem eloquente, metafórica e florida. Mas ela está certa. É exatamente por isso que eu acho que educação em economia, em particular, tão importante. Eu acho que a visão de Maria Montessori foi de um sistema educacional Montessori varrendo o mundo e transformando a próxima geração, de forma que quando estejam maduros, o mundo possa alcançar um estado de paz e cooperação (mas eu não encontrei nenhuma formulação tão explícita; ela era muito modesta). Uma grande e ambiciosa visão, é verdade, mas uma a ser admirada. De fato, Maria Montessori foi indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Se o seus métodos educacionais são, em particular, “o caminho” para liberar o potencial civilizado de humanos em desenvolvimento, eu não sei. Mas, como sempre, a esperança está nos jovens – algo reconhecido pelos montessorianos e libertários. E nesse sentido, eu vou encerrar com as palavras finais da biografia de Montessori por E. M. Standing:

“É ao longo desse caminho que as nações do mundo irão prosseguir de forma mais certa rumo àquela harmonia prevista pelo profeta, quando “o lobo viver com o cordeiro e o leopardo deitar-se com a criança e o bezerro, e o jovem leão e o cordeiro unidos – e a pequena criança irá guiá-los.” [p. 370]

Tradução de Daniel Chaves Claudino | Artigo original aqui.

Leitura Adicional

  • Education and Peace, por Maria Montessori (difícil de achar por um bom preço no Amazon; eu achei esse e outros livros de Montessori no Nienhuis).
  • The Montessori Way, por Tim Seldin e Paul Epstein.
  • Montessori: A Modern Approach e Montessori Today: An Comprehensive Approach To Education From Birth To Adulthood, por Paula Polk Lillard.
  • Michael Olaf catalogs: The Joyful Child (nascimento aos 3 anos) e Child of the World (dos 3 aos 12 anos) (sim, catálogos; e tem maravilhosos mini-artigos por toda a parte).
  • Trevor Eissler, Montessori Madness: A Parent to Parent Argument for Montessori Education.
  • Why Montessori?, informação e links da The Post Oak School.
  • Montessori, Dewey e Capitalism: Educational Theory for a Free Market in Education, por Jerry Kirkpatrick (Eu não li esse, mas a descrição parece interessante: “Resumindo ideias de pensadores distintos tais como educadora Maria Montessori, filósofos John Dewey e Ayn Rand e o economista austríaco Ludwig von Mises, Montessori, Dewey e Capitalism apresenta a filosofia da educação – a teoria da atenção concentrada e julgamento independente – que requer o capitalismo laissez-faire para a sua completa realização.”)
  • Rand and Montessori: Marsha Enright, “Foundations Study Guide: Montessori Education” (the Atlas Society); Michael S. Berliner, “Ayn Rand and her thoughts on Rational Education“;”Ayn Rand e Maria Montessori.
  • Técnicas positivas de disciplina: Redirecting Children’s Behavior, por Kathryn J. Kvols; Positive Discipline, por Jane Nelsen; e Parenting With Love And Logic, por Foster Clinic and Jim Fray (os quais eu li, tentei implementar e são altamente recomendados).
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