Uma visão radical sobre o pragmatismo e o envolvimento de libertários na política

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Por Daniel Chaves Claudino

“Aquiles, o herói grego, e a tartaruga decidem apostar uma corrida. Como a velocidade de Aquiles é maior que a da tartaruga, esta recebe uma vantagem, começando corrida um trecho na frente da linha de largada de Aquiles.

Aquiles nunca sobrepassa à tartaruga, pois quando ele chegar à posição inicial A da tartaruga, esta encontra-se mais a frente, numa outra posição B. Quando Aquiles chegar a B, a tartaruga não está mais lá, pois avançou para uma nova posição C, e assim sucessivamente, ad infitinum.”

Paradoxo de Zenon. Aquiles e a Tartaruga.

A política é um fim em si mesmo, já que o objetivo de políticos e partidos é nada além de se manterem indefinidamente, ou o maior tempo possível, no poder. Assim sendo, qualquer tentativa real de mudança sofrerá grande resistência do meio político, dado que este visa preservar o status quo. Mudanças reais, quando se deram por vias políticas (é discútivel se sequer houve alguma real mudança por tal meio), se deram de forma extremamente lenta e gradual. Levando em conta essa natureza gradual do processo político, aqueles que advogam o uso desse processo para o avanço da liberdade são, em alguns círculos, denominados gradualistas e/ou pragmáticos.

Existe uma objeção moral à tal posição. A participação na política, seja através de cargos políticos ou simplesmente pelo voto, tem como efeito final a legitimação do estado e das eleições como o único meio “legítimo” de mudança. Voltando ao parágrafo anterior, como o estado é intrinsecamente pró-establishment, não deveria ser difícil de entender o motivo pelo qual eleições servem apenas aos interesses do estado e são um empecilho a qualquer real avanço da liberdade.

Por mais radicais e bem intencionadas que sejam as ideias e intenções de alguém, quando seu voto chega a urna, a mensagem que esta pessoa está passando é de que ela concorda com as regras impostas pelo estado. Ela demonstra que, pelos próximos quatro anos, ela entende que o seu candidato irá violar direitos de terceiros. Ela concorda que caso seja ela uma das “vítimas” do próximo tirano, ela deve esperar pelas próximas eleições, exceto no caso em que próprio estado, através de seus inúmeros mecanismos de preservação, decida ou consinta que o atual tirano é muito disfuncional para continuar a manter a integridade da máquina estatal.

Em vista disso, a posição do pragmático se torna tão paradoxal quanto o Paradoxo de Zenon citado no início desse artigo: as suas convicções e intenções podem até estar apontadas na direção certa, na direção da liberdade, mas a verdade é que, enquanto não renunciar à via política, ele nunca chegará lá. Ainda que se analise tal questão de um ponto de vista puramente pragmático (pragmático aqui em seu verdadeiro sentido), excluindo-se os aspectos morais pertinentes, qualquer tentativa de se usar o estado em favor da causa da liberdade está fadada ao fracasso, já que tal posição não pode, por sua própria natureza, levar ao objetivo final. Apenas a liberdade consistente, com uma sólida base ética, mais precisamente aquela alinhada aos ensinamentos de Rothbard e Hoppe, pode levar à real liberdade.

A referência a Rothbard aqui se dá de forma a permitir explorarmos um outro ponto importante relacionado ao presente tema. A exemplo de Isaac Newton, que apesar de famoso por suas contribuições em Física e Matemática, dedicou grande parte da sua vida à Teologia e Alquimia, Rothbard era muito envolvido com política. Ele costumava fazer extensas análises eleitorais e era membro assíduo das conferências do Partido Libertário. Ele pregava que às vezes a prática requer certo gradualismo, mas que a teoria não pode jamais se prestar a tal propósito. Assim como ele, outros nomes de grande reconhecimento são, em diferentes graus, partidários do ativismo libertário no meio político. Christopher Cantwell, Stefan Molyneux e Walter Block, para citar alguns, fazem parte daqueles que estão apoiando ativamente Donald Trump nas eleições americanas de 2016.

Um grande problema que surge disso está no fato de que, uma vez que são grandes referências e, portanto, formadores de opinião no meio libertário, isso tende a fazer com que muitas pessoas se simpatizem com tais posições e acabem por seguí-las. Por diversas vezes, o fato de tais personalidades fazerem uso de meios políticos é usado como defesa da ativa participação libertária em eleições. Isso nada mais é do que a conhecida falácia do apelo à autoridade. Isso desacelera o já bastante lento processo de difusão do ideal libertário, como ocorreu no período do fusionismo, o que resultou em o Libertarianismo ficar associado à movimentos políticos comumente denominados “de direita”.

O Libertarianismo, talvez mais do que qualquer outra corrente de pensamento, é muito mais dependente de ideias do que fatos isolados ou certas atitudes que seus seguidores possam exibir. O fato de tais pensadores terem contribuído de forma indispensável às ideias libertárias em suas diversas frentes não implica que tudo que fazem ou falam deva ser tomado como verdade. Fatos devem ser sempre levados à luz da teoria libertária para então serem avaliadas e terem sua validade determinada, independente a quem tais fatos estejam associados.

Em resumo, seja de um ponto de vista puramente ético ou predominantemente pragmático, a via política deve ser terminante e veementemente rejeitada. Usar como defesa de tal argumento o fato de que alguns grandes libertários o fazem de forma alguma valida tal prática. Caso amanhã todos os libertários citados acima se declarem entusiastas de eleições, isso com certeza teria impacto no ativismo libertário, mas o Libertarianismo em si, enquanto corpo de pensamento consistente e irrefutável, permaneceria intacto.

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